Jerry Hsu nasceu em 1981, em San Jose, na California. Já consolidou seu nome na fotografia contemporânea, mas acima de tudo, na cultura da internet. Neste ano, pela MACK, foi publicado o seu novo livro “How About Never, uma meditação sobre cerca de 15 anos de Jerry em Los Angeles.
Aqui, é importante ressaltar que o projeto acaba sendo mais sobre o autor do que sobre a cidade de Los Angeles em si: apresenta-se uma subjetividade que raramente é encontrada quando há a proposta de fotografar x lugar, mas que se mostra poderosa quando o fotógrafo se põe no papel de um observador, e mais que isso, de alguém que só tenta absorver tudo aquilo que aquele lugar lhe oferece.
Para entender quem é Jerry Hsu e sua influência na cultura midiática, é interessante começar pelo seu nome de usuário no instagram: @internetfamous. O nome de usuário de Jerry, que referência o termo homônimo, brinca justamente com a ideia de existir digitalmente e de ter ganhado fama e um status de mistério em uma época da Internet em que estar online era um ato muito mais consciente e ainda por cima, na maioria das vezes era atrelada a um lugar físico, seja este o computador da casa ou uma lan-house.
Em 2009, Hsu começou no Tumblr o blog “NAZI GOLD” , uma coletânea de fotografias feitas com diversos métodos (mas principalmente com um celular) de seu cotidiano.
É extremamente injusto chamar o que foi este blog de um projeto ou um corpo de trabalho, pois olhando hoje para trás, é bem fácil enxergar que era apenas alguém tentando fazer sentido de seu entorno, expondo as bizarrices e ironias que se apresentavam a ele enquanto vivia imerso em uma grande cidade (sobretudo Los Angeles, para onde Jerry se realocou em 2011) e numa forte cultura. É a partir desse recorte, Los Angeles de 2011 para cá, que tomou corpo o livro que inspirou esta matéria. Não temos o livro em mãos, mas temos registros dele e de falas de seu autor que ajudam muito a entender este momento. Jerry deu uma entrevista para a reporter Emily Dinsdale, da AnOther Magazine, que começa seu texto falando de um momento pré-distopico do mundo que se reflete na seleção de registros para oprojeto do fotógrafo. Hsu discorda, e afirma: eu diria que a atmosfera do livro está mais para o romântico e compassivo [...] mas isso sou eu, posso estar bem errado em relação a isso
.
Esta é uma troca interessantíssima para pensar sobre consumo de mídia, principalmente da maneira que este consumo se desenrola hoje em dia. Toda pessoa que tem um aparelho celular faz algum registro quase todo dia, e uma boa porção desse todo compartilha os registros, também, quase todo dia (é muita informação circulando e sendo absorvida). Muitas das fotos do livro de Jerry já eram conhecidas e reproduzidas há algum tempo, mas algo diferente é criado quando duas fotos individuais são colocadas lado a lado: a associação muda todo o significado, significado este que não tem um dono. No caso do projeto de hoje, quando Hsu fotografou foi por um motivo, quando juntou fotos de momentos diferentes foi por uma outra intenção e quando essas fotografias são apresentadas pro mundo e passam pelo filtro pessoal do espectador, com suas angústias, crenças e ideias, um novo diálogo toma o palco. Isso não costuma acontecer nas redes sociais, e por isso projetos como este têm tanta relevância. Ainda no mundo das redes sociais, existe um fenômeno que possibilita um aprendizado que seria difícil ter de outra maneira: podemos entrar no Youtube agora e assistir diálogos e monólogos de artistas. Jerry participou de alguns podcasts e entrevistas nos últimos anos, e podemos destacar algumas falas dele que ajudam a entender um pouco a sua prática. No programa “Nine Club” , apresentado pelo skatista Chris Roberts, Jerry diz: “minha mulher, por exemplo, diz: como você não enxerga quando tem um garfo no sofá, mas você sabe o exato momento que alguém na rua vai tropeçar?” e depois parte pra explicação de como captar os momentos que ele absorve a tantos anos exige mais trabalho do que as pessoas imaginam, expondo inclusive que utiliza o app Citizen (sistema de alertas de acontecimentos na cidade em tempo real, registrado por outros usuários) para encontrar o que fotografar. Um outro lado também existe no processo de Jerry, que é de simplesmente estar atento enquanto dirige e não se preocupar de atrasar o dia se algo de interessante aparecer por ali.
“How About Never” escolhe retratar Los Angeles por um outro ângulo.
Jerry diz que quis fugir dos clichês e estereótipos do local, nunca estando interessado em“ retratar o glamour” e paisagens caricatas que frequentemente são associados com a cidade. Virando o olhar para dentro e explorando a sua individualidade dentro de tudo que acontece num lugar como esse foi o pilar pra construir um retrato íntimo (e com certeza, mais fácil para o espectador se identificar do que quando o óbvio é exposto) de sua vida nos últimos 15 anos respirando as ruas dessa metrópole. Jerry afirmou ainda à AnOther Magazine que “Este lugar é obviamente um personagem no livro mas eu raramente, talvez nunca, o referenciei conscientemente ”, e talvez tenha sido exatamente sua lente pessoal e aproximação mais introspectiva que tenha ajudado a captar tão bem a essência de LA. Outras imagens do livro não foram feitas nas ruas, mas na privacidade de Jerry e sua então esposa. Durante os 15 anos de fotografia, o autor acabou registrando o começo, meio e fim de seu casamento. O mais interessante desse processo é que, no livro, o rosto de sua ex-companheira só é exposto uma única vez, dando lugar nas demais em que ela aparece a fragmentos de seu corpo em meio a uma outra cena. Essa escolha de edição exemplifica muito bem a essência do projeto, a ideia de que o que não está ali importa tanto quanto o que é mostrado.
Talvez o objeto da foto, seja a cidade de Los Angeles ou uma parceira de vida, seja menos importante do que a maneira como o fotógrafo absorve e vivencia a ocorrência.
É interessante pensar sobre isto quando Jerry escolhe retratos de objetos ou estranhos para associar com os de seu próprio relacionamento, quase umas busca por entendimento no meio do próprio processo de concepção do projeto. É muito rico enxergar um fotolivro que mostra seu próprio criador respirando no meio de tudo o que se passou durante anos, distorcendo as barreiras do que acontece fora, dentro e de sua própria percepção. T rabalhos em que temos certeza que há alguém por trás das câmeras são sempre os melhores. O livro “How About Never ” está disponível desde agosto, disponível na plataforma da própria MACK e, no Brasil, sob encomenda na Livraria Martins Fontes.
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