Em uma época em que as imagens são produzidas e consumidas em velocidade recorde, o fotógrafo Fareed Kotb escolheu seguir por outro caminho. Durante a Copa do Mundo FIFA 2026, documentou um dos maiores eventos do planeta com uma câmera de grande formato de 1930, propondo uma reflexão sobre o tempo, velocidade e memória. Nesta entrevista exclusiva à voyeur; mag, conduzida pelo editor Luan Tanaka, conversamos sobre o Project 1930, a velocidade com que consumimos imagens e, sobretudo, sobre o que esse projeto revela, de forma íntima, sobre quem é Fareed Kotb.       ​​​​​​​
Luan Tanaka : Enquanto acompanhávamos seu projeto, tivemos a sensação de que ele propõe um contraste muito interessante. A Copa do Mundo talvez seja o evento mais imediato do planeta, tudo acontece em tempo real, as imagens circulam instantaneamente e são consumidas quase no mesmo ritmo em que são produzidas. Ao escolher fotografá-la com uma câmera analógica de grande formato, você parece caminhar na direção oposta. Essa escolha foi, de alguma forma, uma tentativa de questionar a relação contemporânea do tempo com as imagens? O que você esperava provocar através desse contraste?
Fareed Kotb : Na verdade, esse contraste foi o ponto de partida de todo o projeto. A Copa do Mundo da FIFA é um dos eventos mais rápidos do planeta, milhões de fotografias são produzidas todos os dias, transmitidas em questão de segundos, observadas por um instante e, logo em seguida, desaparecem no fluxo infinito de novas imagens. Eu não queria competir com essa velocidade, porque sabia que jamais conseguiria. Em vez disso, decidi seguir na direção oposta...O Projeto 1930 nunca foi sobre usar uma câmera antiga apenas porque ela evocava nostalgia, a câmera se tornou uma maneira de fazer uma pergunta muito maior: O que acontece quando desaceleramos um pouco ?Hoje, a tecnologia nos permite produzir milhares de imagens sem pensar. Primeiro fotografamos; depois refletimos, quando refletimos. Uma câmera de grande formato inverte completamente essa lógica, cada fotografia começa muito antes do disparo. Ela começa com observação, paciência, espera e, finalmente, com a decisão consciente de que aquele instante específico merece existir para sempre, é isso que me fascina. A Copa do Mundo celebra também a velocidade: jogadores rápidos, câmeras rápidas, edição rápida, publicação rápida, minha câmera celebrava exatamente o contrário... Exigia paciência no centro do evento esportivo mais veloz do mundo. Eu não estava tentando criticar a fotografia contemporânea. No meu trabalho profissional, utilizo diariamente os equipamentos digitais mais modernos e tenho profunda admiração por tudo o que a tecnologia tornou possível. Mas também acredito que todo avanço tecnológico traz consigo o risco de perdermos alguma outra coisa. Às vezes, quando fotografar se torna mais fácil, enxergar se torna mais difícil. Com este projeto, eu queria convidar as pessoas a fazer uma pequena pausa e se perguntarem algo muito simples: Quando foi a última vez que você realmente olhou de verdade para uma fotografia, em vez de simplesmente passar por ela? Se o Projeto 1930 conseguiu alcançar alguma coisa, espero que tenha lembrado às pessoas de que o verdadeiro valor de uma fotografia não é medido pela rapidez com que ela chega ao público, mas pelo tempo que ela continua viva na memória de quem à vê.
''O futebol me deu uma profissão porem mais importante do que isso, me deu um passaporte para a vida das pessoas, permitiu que eu testemunhasse momentos de felicidade, sofrimento, união e esperança em diferentes culturas e países''
Luan Tanaka : Acreditamos que fotografar em grande formato talvez obrigue o fotógrafo a mudar de ritmo junto com a câmera. Você sentiu que isso mudou a forma como viveu a Copa? De alguma maneira, você se percebeu mais presente na experiência ?
Fareed Kotb : Sem dúvida. Cheguei à Copa do Mundo esperando documentar o futebol, mas, de muitas maneiras, foi a câmera que acabou me documentando, ela transformou não apenas as fotografias que produzi, mas também a maneira como vivi cada dia do torneio.Quando trabalho normalmente com uma câmera esportiva moderna, minha mente está constantemente calculando…Por onde o ataque vai se desenvolver? Qual lente devo usar? Com que rapidez conseguirei enviar essas imagens? Tudo acontece quase por instinto, porque o ritmo do evento exige isso. A câmera de grande formato apagou completamente essa dinâmica, de repente fui obrigado a desacelerar e precisei aceitar que jamais conseguiria fotografar todos os momentos. Em vez de perseguir tudo, comecei a procurar aquele único instante que realmente importava e, ironicamente, ao fotografar menos, comecei a enxergar mais. Passei a perceber detalhes que provavelmente antes ignoraria: as expressões silenciosas dos torcedores antes do apito inicial; a forma como a luz do sol atravessava o estádio; crianças segurando as mãos dos pais; voluntários aguardando antes da abertura dos portões; a arquitetura ao redor das partidas; e aqueles pequenos intervalos emocionais que normalmente desaparecem atrás da ação. A câmera também transformou minha relação com as pessoas que fotografei… com câmeras digitais, um retrato costuma acontecer em poucos segundos, mas com essa câmera, cada retrato tornou-se uma pequena colaboração. As pessoas ficavam curiosas e desacelerávamos  juntos. Observavam o processo de foco no vidro fosco, faziam perguntas sobre a câmera e aguardavam pacientemente pela única exposição e quando finalmente eu acionava o obturador, aquela fotografia já carregava uma experiência compartilhada entre fotógrafo e retratado. De muitas maneiras, o projeto me ensinou algo que eu não esperava, estar presente não significa apenas estar fisicamente em algum lugar…Estar presente significa dedicar atenção completa a um único instante. Talvez esse tenha sido o maior presente que essa câmera me deu. Ela não mudou apenas o ritmo da minha fotografia, mudou o ritmo do meu pensamento e acredito que essa lentidão permanece gravada, para sempre, em cada fotografia produzida durante o projeto.
''Às vezes, quando fotografar se torna mais fácil, enxergar se torna mais difícil.''
Luan Tanaka : Você escolheu fotografar a Copa do Mundo com uma câmera de 1930, ano da primeira edição do torneio. Sendo uma pessoa envolvida diretamente na beira do campo, como você enxerga as mudanças que o tempo desde 1930 trouxe pro futebol, e qual é a sua relação com esse mundo?

Fareed Kotb : O futebol mudou enormemente desde 1930, o jogo tornou-se mais rápido, mais físico, mais tático e mais global do que qualquer pessoa poderia imaginar quando a primeira Copa do Mundo foi disputada no Uruguai. Hoje, cada movimento dentro de campo é analisado, cada jogador é monitorado pela tecnologia, cada gol chega a milhões de pessoas em questão de segundos. Mas, apesar de todas essas transformações, acredito que a essência do futebol permaneceu exatamente a mesma, ela continua sendo uma história sobre esperança. Se observarmos fotografias da Copa do Mundo de 1930 ou da Copa de 2026, encontraremos sempre as mesmas emoções: a expectativa antes do início da partida; a alegria após uma vitória; a decepção depois de uma derrota; crianças sonhando em se tornar jogadores de futebol; e torcedores acreditando que, desta vez, sua nação poderá realizar algo extraordinário. Essas emoções nunca evoluíram, apenas vestem camisas diferentes. Depois de tantos anos trabalhando à beira dos gramados, aprendi que o futebol é muito maior do que noventa minutos… a partida em si representa apenas um capítulo, tudo o que existe ao seu redor como a viagem, as pessoas, as ruas, os rituais, as conversas e as celebrações é igualmente importante. Essa percepção tornou-se um dos pilares do Projeto 1930, eu não queria fotografar o futebol como uma competição queria fotografar o futebol como uma experiência humana e talvez por isso eu estivesse menos interessado em gols espetaculares do que no silêncio que antecede o apito inicial, menos interessado no apito final do que nos rostos que deixavam o estádio depois do jogo. O futebol me deu uma profissão porem mais importante do que isso, me deu um passaporte para a vida das pessoas, permitiu que eu testemunhasse momentos de felicidade, sofrimento, união e esperança em diferentes culturas e países. Depois de cobrir três Copas do Mundo da FIFA, já não enxergo o futebol apenas como um esporte, vejo-o como uma das poucas linguagens verdadeiramente universais que a humanidade ainda compartilha e o Projeto 1930 foi a minha maneira de lembrar a mim mesmo e talvez também aos outros que, embora o futebol esteja em constante movimento rumo ao futuro, sua alma sempre permaneceu atemporal.
''Quando tudo é registrado, muito pouco acaba realmente sendo lembrado, não acredito que o problema seja a tecnologia em si…O problema é que a velocidade deixa muito pouco espaço para a contemplação. Hoje, a maioria das fotografias vive apenas alguns segundos antes de ser substituída por outra em nossas telas, assim não damos a nós mesmos tempo suficiente para construir uma relação com elas.''
Luan Tanaka : Hoje produzimos mais fotografias do que nunca, mas talvez dediquemos menos tempo a observá-las. Você acredita que a velocidade com que consumimos imagens mudou também a forma como lembramos dos acontecimentos?
Fareed Kotb : Acredito, sim, que a velocidade com que consumimos fotografias transformou a maneira como nos lembramos do mundo, a fotografia sempre esteve profundamente ligada à memória e durante gerações, as fotografias eram preciosas justamente porque eram limitadas, as famílias se reuniam em torno dos álbuns, cada imagem carregava uma história e  cada fotografia representava uma decisão consciente de preservar um momento para sempre. Hoje, temos armazenamento praticamente ilimitado e infinitas oportunidades para fotografar tudo, paradoxalmente, essa abundância pode reduzir o valor emocional de cada imagem individual. Quando tudo é registrado, muito pouco acaba realmente sendo lembrado, não acredito que o problema seja a tecnologia em si…O problema é que a velocidade deixa muito pouco espaço para a contemplação. Hoje, a maioria das fotografias vive apenas alguns segundos antes de ser substituída por outra em nossas telas, assim não damos a nós mesmos tempo suficiente para construir uma relação com elas. Essa foi uma das razões que me aproximaram da fotografia em grande formato. Saber que eu tinha apenas uma única chapa de filme me obrigava a fazer perguntas difíceis antes de cada exposição: Este momento é realmente importante? Ele continuará fazendo sentido daqui a muitos anos? Ele merece tornar-se parte da história? Essas perguntas raramente existem quando um cartão de memória pode armazenar milhares de imagens e o Projeto 1930 acabou se tornando um experimento não apenas sobre fotografia, mas também sobre a própria memória. Eu não queria criar fotografias que fossem simplesmente vistas durante a Copa do Mundo, queria criar fotografias às quais as pessoas pudessem voltar anos depois e, ainda assim, descobrir algo novo a cada novo olhar. Talvez essa seja a maior diferença entre uma imagem que apenas informa e uma imagem que permanece conosco…A primeira nos diz o que aconteceu e a segunda nos permite continuar sentindo que aquilo aconteceu.
Luan Tanaka : Onde esse tipo de fotografia mais conceitual e autoral se encaixa no mundo de imagens atual? Qual é a importância de produzir obras desse tipo, em uma época de reprodução muito rápida de imagens?

Fareed Kotb : Quando comecei o projeto, nunca pensei nele como um ato de resistência, eu apenas queria fazer fotografias de uma maneira diferente. Mas, quanto mais tempo passei trabalhando com essa câmera, mais percebi que a própria lentidão havia se tornado uma forma silenciosa de resistência, vivemos em uma cultura que mede constantemente o valor pela velocidade… Quanto mais rápido você produz, mais visível se torna, quanto mais frequentemente publica, mais relevante parece ser e o sucesso costuma ser medido em números: quantas fotografias, quantas visualizações, quantos seguidores, quantos segundos. A fotografia não escapou dessa realidade, não existe nada de errado com a velocidade e no meu trabalho como fotógrafo esportivo, ela é absolutamente essencial… Os editores dependem dela, as agências precisam dela, o público a espera e eu respeito isso completamente. Mas também acredito que nem tudo o que é significativo pode acontecer na mesma velocidade, algumas experiências precisam de tempo antes de se revelarem e trabalhar com uma câmera de 1930 me lembrou que a paciência não é o oposto da criatividade… Muitas vezes, ela é o seu alicerce e por isso cada espera passou a fazer parte da própria fotografia. Hoje em dia, esperar costuma ser visto como perda de tempo, mas o Projeto 1930 me ensinou justamente o contrário, esperar também pode ser um ato criativo e talvez a lentidão não tenha a ver com rejeitar a vida moderna, talvez ela seja apenas a escolha de, de vez em quando, não permitir que a vida moderna determine o seu ritmo. Essa talvez seja uma boa forma de resistência e talvez seja a grande importância de trabalhar desta forma.​​​​​​​
''A câmera de grande formato apagou completamente essa dinâmica, de repente fui obrigado a desacelerar e precisei aceitar que jamais conseguiria fotografar todos os momentos. Em vez de perseguir tudo, comecei a procurar aquele único instante que realmente importava e, ironicamente, ao fotografar menos, comecei a enxergar mais.''
Luan Tanaka : Vivemos um momento em que o mercado da fotografia esportiva depende cada vez mais da entrega imediata. Como esse projeto foi recebido pelos organizadores, pela imprensa e pelos próprios colegas fotógrafos? Você acredita que a fotografia analógica cria uma relação diferente com a memória e com o tempo e talvez sobre a forma como produzimos e consumimos imagens hoje?

Fareed Kotb : Muita coisa mudou, normalmente, fotógrafos tentam desaparecer… Vestimos roupas escuras, usamos câmeras menores, nos movemos discretamente e esperamos que, com o tempo, as pessoas deixem de notar nossa presença, costumamos acreditar que a invisibilidade nos permite registrar momentos mais autênticos. Minha câmera tornou isso impossível, as pessoas percebiam a câmera muito antes de perceberem a mim e no começo, imaginei que isso seria um problema mas acabou se tornando um dos maiores presentes de todo o projeto. A curiosidade substituiu a distância e as pessoas se aproximavam de mim antes mesmo que eu me aproximasse delas… Faziam perguntas, queriam entender como aquela câmera funcionava, por que era tão antiga e por que cada fotografia demorava tanto para ser feita. Essas conversas transformavam as fotografias antes mesmo de elas existirem… O retrato deixava de começar quando eu olhava através da lente e começava com uma conversa. Às vezes passávamos dez ou quinze minutos conversando antes de fazer uma única exposição e durante esse tempo, as pessoas deixavam de pensar em posar para uma fotografia, elas simplesmente voltavam a ser elas mesmas. Percebi que a autenticidade nem sempre nasce da invisibilidade, às vezes, ela nasce da confiança. A câmera desacelerava tudo e isso foi muito importante. Ela nos dava tempo suficiente para nos sentirmos confortáveis um com o outro antes da criação da imagem. Muitas das pessoas que fotografei me disseram depois que sentiram ter participado da construção da fotografia, em vez de apenas terem sido fotografadas…Acho essa uma diferença muito bonita. A câmera de grande formato não criou uma barreira entre fotógrafo e retratado como eu imaginei primeiramente, ela criou uma relação e talvez essa relação seja algo cada vez mais raro em uma época em que fotografias podem ser feitas quase instantaneamente, enquanto conexões humanas verdadeiras continuam exigindo muito mais tempo
''O futebol me deu uma profissão porem mais importante do que isso, me deu um passaporte para a vida das pessoas, permitiu que eu testemunhasse momentos de felicidade, sofrimento, união e esperança em diferentes culturas e países.''
Luan Tanaka : Você acredita que ainda existe espaço, dentro do mercado atual, para trabalhos que escolhem conscientemente abrir mão das exigências do mercado, velocidade, gastos, megapixels e etc ?

Fareed Kotb : Essa é uma pergunta que venho fazendo a mim mesmo muitas vezes desde que voltei para casa. No início, imaginei que o Projeto 1930 seria apenas mais um capítulo da minha carreira, uma experiência marcante da qual eu sempre me orgulharia. Mas, quanto mais tempo passou, mais percebi que ele transformou algo muito mais profundo, ele mudou a maneira como presto atenção. Hoje, mesmo quando trabalho com as câmeras digitais mais rápidas disponíveis, percebo que desacelerei por dentro. Continuo me movendo rapidamente, porque meu trabalho exige isso, mas minha mente já não corre da mesma maneira. Antes do Projeto 1930, eu passava o tempo procurando fotografias e hoje, espero que elas se revelem. O projeto também transformou minha maneira de definir sucesso, no começo da minha carreira, sucesso estava frequentemente ligado ao acesso privilegiado, às grandes coberturas, às capas de jornais ou às publicações internacionais e tudo isso continua sendo importante, continuo profundamente grato por cada oportunidade, mas este projeto me lembrou que a maior satisfação nasce quando criamos um trabalho que simplesmente não poderia ter sido realizado por outra pessoa. A originalidade é uma conquista mais silenciosa do que a popularidade, porem acredito que ela permanece por muito mais tempo. Respondendo de forma mais clara…Acredito que existe espaço e necessidade para projetos desse tipo e se me perguntar se pretendo continuar trabalhando com câmeras de grande formato… Sem a menor dúvida, sim ! Não porque eu queira repetir o Projeto 1930, mas porque descobri uma forma de olhar o mundo que não quero perder. Todo projeto verdadeiramente significativo deveria nos deixar um pouco diferentes da pessoa que éramos quando ele começou, pois se ele não transforma o fotógrafo, acredito que dificilmente conseguirá transformar quem observa o trabalho. Talvez o Projeto 1930 tenha documentado uma Copa do Mundo mas, de muitas maneiras, também documentou o momento em que me tornei um fotógrafo diferente.
''A câmera de grande formato não criou uma barreira entre fotógrafo e retratado como eu imaginei primeiramente, ela criou uma relação e talvez essa relação seja algo cada vez mais raro em uma época em que fotografias podem ser feitas quase instantaneamente, enquanto conexões humanas verdadeiras continuam exigindo muito mais tempo.''
Luan Tanaka : Há uma ideia que nos acompanhou durante todo o seu projeto: talvez hoje estejamos produzindo documentos para o presente, enquanto você parece estar produzindo documentos para o futuro. Faz sentido para você? 
Fareed Kotb : Sim. Curiosamente, não percebi isso durante uma partida de futebol, nem depois de produzir aquela que considero minha melhor fotografia e também não foi quando o projeto começou a receber atenção internacional. Percebi isso quando havia acabado de terminar o foco da câmera sob o pano escuro. O estádio estava completamente vivo, milhares de torcedores cantavam, fotógrafos ao meu redor disparavam centenas de imagens por minuto, equipes de televisão transmitiam ao vivo.Então inseri uma única chapa de filme e por alguns segundos, tive a sensação de que o mundo inteiro havia silenciado… mas nada do lado de fora havia mudado, a torcida continuava cantando, os jogadores ainda aqueciam e tudo seguia exatamente como antes. A única coisa que havia mudado era eu, naquele instante compreendi que já não estava tentando fotografar a Copa do Mundo da mesma maneira que todos os outros.  Em vez de perguntar: "O que vou fotografar agora?" Passei a perguntar: "O que realmente merece ser fotografado?" e foi nesse momento que o Projeto 1930 realmente começou. A câmera deixou de ser um objeto vindo do passado e se tornou uma forma diferente de olhar para o presente e produzir fotografias para o futuro. Não acredito que essa transformação possa ser vista diretamente em uma fotografia específica, mas tenho a convicção de que ela está presente dentro de cada fotografia que fiz
''Se estas fotografias levarem algumas pessoas a fazer uma pausa antes de apertar o obturador, a pensar antes de produzir mais uma imagem ou simplesmente a dedicar alguns segundos a mais contemplando uma fotografia, então este projeto terá alcançado muito mais do que eu jamais imaginei.''
Luan Tanaka : Ainda sobre o futuro, quando essas fotografias forem vistas daqui a vinte ou cinquenta anos o que você espera que elas contem para quem não viveu esta Copa do Mundo?
Fareed Kotb : Espero que elas não se lembrem apenas como "o projeto em que alguém fotografou uma Copa do Mundo com uma câmera antiga". Se isso for tudo o que permanecer na memória, acredito que terei fracassado. A câmera nunca foi a verdadeira história, ela foi apenas a linguagem que escolhi para contá-la…O que realmente espero que as pessoas recordem é o convite para desacelerar. Para olhar com mais atenção, para voltar a se sentir confortáveis com o silêncio. Costumamos acreditar que a história é feita apenas de momentos extraordinários, mas a fotografia me ensinou que a história também vive nos momentos silenciosos, naqueles instantes pelos quais quase todo mundo passa sem perceber. Se estas fotografias levarem algumas pessoas a fazer uma pausa antes de apertar o obturador, a pensar antes de produzir mais uma imagem ou simplesmente a dedicar alguns segundos a mais contemplando uma fotografia, então este projeto terá alcançado muito mais do que eu jamais imaginei. Também espero que ele lembre às futuras gerações de fotógrafos que a originalidade nem sempre nasce de uma tecnologia nova, as vezes, ela nasce da coragem de fazer perguntas antigas em um tempo novo. Talvez esse seja, no fundo, o verdadeiro significado do Projeto 1930, ele nunca foi sobre voltar ao passado, foi sobre descobrir que progresso e reflexão podem coexistir. Se alguém abrir este trabalho daqui a vinte ou trinta anos e sentir, ainda que por um breve instante, que o próprio tempo não esta mais desnecessariamente tão veloz… então saberei que o projeto continua vivo.
Luan Tanaka : Para terminar, gostaríamos de voltar ao início. Você fotografou o evento mais imediato do mundo através do processo fotográfico menos imediato que existe. O que essa escolha diz sobre você?
Fareed Kotb : Diz muitas coisas… Sempre estive mais interessado em significado do que em velocidade… Não tenho absolutamente nada contra a tecnologia, no meu trabalho profissional utilizo as câmeras digitais mais modernas, porque elas são as ferramentas certas para aquilo que preciso fazer, elas me permitem contar histórias que simplesmente não poderiam ser contadas de outra maneira. Mas nunca acreditei que a ferramenta mais nova, por si só, seja capaz de produzir a fotografia mais significativa. O Projeto 1930 foi a minha maneira de lembrar a mim mesmo que fotografia nunca foi realmente sobre câmeras, ela é sobre atenção, presença, paciência e acima de tudo, sobre decidir conscientemente que determinado instante merece ser lembrado. Escolher uma câmera de 1930 para fotografar a Copa do Mundo de 2026 nunca foi uma tentativa de rejeitar o presente, foi uma tentativa de criar um diálogo entre dois momentos diferentes da história. Um deles nos lembra de onde a fotografia veio e o outro nos mostra para onde ela está caminhando… E em algum lugar entre esses dois mundos, encontrei minha própria voz. Talvez essa escolha diga que me sinto confortável em caminhar contra a corrente sempre que acredito haver algo verdadeiramente significativo à minha espera. Nunca quis criar fotografias que as pessoas apenas admirassem, quero criar fotografias que as façam pararem, Pensarem… estarem aqui de fato e talvez até questionar a maneira como olham para o mundo. Se este projeto diz alguma coisa sobre mim, espero que diga que sou curioso…Curioso o bastante para fazer perguntas incomuns, paciente o suficiente para esperar pelas respostas e obstinado o bastante para continuar acreditando em uma ideia, mesmo quando ela parece pouco razoável. No fim das contas, as câmeras envelhecem, a tecnologia muda, as Copas do Mundo vêm e vão, mas o desejo de preservar um momento humano verdadeiramente significativo... esse jamais se torna obsoleto. E talvez esse seja exatamente o fotógrafo que sempre desejei me tornar.​​​​​​​
''Se este projeto diz alguma coisa sobre mim, espero que diga que sou curioso…Curioso o bastante para fazer perguntas incomuns, paciente o suficiente para esperar pelas respostas e obstinado o bastante para continuar acreditando em uma ideia, mesmo quando ela parece pouco razoável.''
EXTRA de Fareed Kotb : Há mais uma coisa que ainda não mencionei, desde o início, eu nunca estive realizando apenas um projeto fotográfico. Eu estava fazendo um documentário, seu título é simplesmente "1930". Minha intenção original era não publicar sequer uma única fotografia antes que o documentário estivesse completamente concluído, porque as fotografias eram apenas uma parte de uma história muito maior. O filme acompanha toda a jornada: a busca pela câmera; o processo de restauração; o aprendizado necessário para operá-la; a preparação para a Copa do Mundo e todos os acontecimentos registrados nos bastidores. Durante esse percurso, minha pesquisa revelou algo que eu jamais poderia imaginar, encontrei evidências de que essa mesma geração de câmeras foi utilizada para documentar alguns dos momentos mais importantes da história do Egito. Entre eles, fotografias relacionadas à seleção egípcia antes da Copa do Mundo da FIFA de 1934 e imagens ligadas aos primórdios da história esportiva do país. Essas descobertas transformaram o projeto… O que começou como um experimento fotográfico acabou se tornando também uma investigação histórica. Mas, à medida que a Copa do Mundo acontecia, as pessoas começaram a pedir para ver as fotografias. Organizações de mídia, jornais, revistas e públicos do mundo inteiro queriam publicar o trabalho enquanto o torneio ainda estava em andamento. Em determinado momento, percebi que seria impossível manter todas as imagens em segredo até a conclusão do filme, então tomei a decisão de compartilhar uma pequena parte do projeto…Na realidade, tudo o que o público viu até agora representa talvez apenas dez por cento de toda a história, o documentário ainda guarda a maior parte de suas surpresas. E espero que, um dia, as pessoas descubram que o Projeto 1930 nunca foi apenas sobre fotografias, sempre foi sobre a jornada que tornou essas fotografias possíveis.
Acompanhe o trabalho de Fareed Kotb em seu instagram @fareed_kotb ou em seu site www.footografiia.com
Todas as fotografias desta matéria são de autoria de Fareed Kotb e foram gentilmente cedidas pelo fotógrafo para publicação na voyeur; mag.
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