O primeiro episódio de nosso quadro de entrevistas é com o fotógrafo Gian Chumer. Uma caminhada na Avenida Paulista, em São Paulo, enquanto surgem assuntos, registros e trocas de experiências.
Poucos lugares são tão emblemáticos em um domingo em São Paulo como a Avenida Paulista. As ruas se fecham para veículos e se abrem pra pessoas, cultura e uma espécie de vivência que só se revela quando pode-se transitar livremente por algum lugar. Justamente nesse contexto que nasce o objeto de interesse deste episódio (e do trabalho fotográfico de Gian, entrevistado da vez).
A conversa começa simples, como várias outras que Luan e Gian têm com frequência. Os dois amigos fotografam juntos há algum tempo, e depois de várias experiências compartilhadas entre a dupla e a fotografia, surgiu a vontade de criar algo novo. O momento pedia algo que servisse como uma extensão da observação diária que os dois praticam, seja com a câmera ou por outro meio. Nesse contexto, nasce a voyeur mag; (e nada mais justo do que o primeiro episódio de um dos quadros da revista ser com o pessoal da casa).
Gian começou a fotografar por volta dos seus 17 anos. Muitas vezes como hobby, outras profissionalmente e sempre por uma necessidade enorme de estar presente na vida, na cidade e em si mesmo. Fotografar se tornou uma maneira de estar em contato, de observar sem necessariamente interagir de maneira direta.
“para mim, o que não está ali é mais importante do que é registrado, sempre.”
No episódio, vários assuntos surgem. Desde inspirações fotográficas, opiniões sobre o estado da fotografia e outros campos visuais e, também, projetos passados ou inacabados. Um destes projetos é o estudo batizado de “Ausente Sem Ter Partido”, uma espécie de diário (termo que Gian usa) de observação, que se compromete a registrar somente coisas ou cenas que indicam uma presença (passada ou atual) de uma pessoa, sem registrar essa pessoa si.
“O projeto nasceu como um desafio visual e também uma necessidade de expressar algo confuso que me incomodava. Comecei fotografando pessoas, clássico da fotografia de rua. Porém depois de um certo tempo, senti que meu corpo de trabalho estagnou e minhas fotografias careciam de um pouco de autenticidade e força. Então, coloquei um desafio pessoal para tentar renovar um pouco, pensar mais no que registrava. O outro âmbito que influenciou a construção deste projeto foi o sentimento de existir sempre em um espaço “cinza”, estar em algum lugar mas ao mesmo tempo não estar. Quis projetar esse sentimento na própria cidade, pensando ainda mais numa cidade como São Paulo, em que certas áreas sofrem este processo de um certo esquecimento.”
Este projeto, segundo o convidado, não tem data pra acabar. Na verdade, vai servir como uma observação contínua e permanente, algo que sempre está em um certo plano de foco nas vezes em que Gian fotografa. É necessário pensar que projetos com uma motivação clara são importantíssimos para a evolução de um fotógrafo. A maioria das pessoas começa fotografando o que acha legal, o que se destaca, mas são os projetos que consolidam o tão sonhado objetivo de quem fotografa, mas não há muito tempo: encontrar seu estilo.
Ao explorar mais a ideia do estilo próprio (e também a menção do que “se destaca” no parágrafo anterior), um outro assunto vem à tona, tanto nesta matéria quanto na entrevista: os gatilhos fotográficos. É costumeira a prática de, sobretudo na fotografia de rua, registrar algo por instinto, sem saber muito bem a motivação que levou ao ato do registro. Apesar de ser uma experiência coletiva no mundo fotográfico, a natureza destes gatilhos é extremamente subjetiva. Alguns fotógrafos sempre tiram fotografias de momentos de interação física, como beijos, abraços, ou por outro lado, brigas e discussões. Outras pessoas sempre registram objetos largados, coisas que parecem que não pertencem onde estão. No caso de Gian, dois gatilhos são bem claros: flores e cigarros. Sempre que vê algum destes elementos de maneira um pouco diferente, a foto se mostra necessária. O porquê disso? Difícil de entender. Mas serve pra exemplificar como a prática fotográfica vem sempre de dentro pra fora. Projeta-se no externo algo do interno que quer se fazer notável.
Este RUN; se desdobra de maneira bem descontraída. A premissa é justamente a falta de uma, neste caso. É ir a algum lugar e fazer o reconhecimento do ambiente por meio da fotografia, apostando na ideia de que uma câmera na mão garante um olhar mais atencioso.
“O melhor jeito de conhecer um lugar novo é ir fotografar, olhar pra coisas que talvez você deixaria passar batido se não se obrigasse a encontrá-las”
disse Gian na conversa ao se referir a oportunidades que teve de fotografar em outros países. Uma cultura (principalmente alguma diferente a qual um indivíduo está inserido) é observável de longe, mas quase sempre percebida só quando se enxerga os detalhes. Compreender como uma cultura se comporta e entender suas nuances é um processo que leva séculos, o que torna uma viagem de duas a três semanas impossível de exercer este papel da descoberta. Ainda assim, há algo de muito valioso na experiência de ser um desconhecido em um lugar desconhecido para você. Andar pelas ruas de uma cidade nova, sem saber onde a próxima esquina vai levar, é um processo de exploração que rende muitos frutos (especialmente em cidades que pensam no pedestre). Exercita-se um olhar com uma inocência raramente encontrada no dia a dia de onde você mora. Ás vezes, deixamos algumas coisas passar, mas se nos abrirmos pra novos ambientes, podemos recuperar um pouco de nosso olhar.
Em alguns casos, os gatilhos se tornam exercício, e posteriormente, projetos. Na conversa, é mencionado o livro Twirl/Run, do fotógrafo estadunidense Jeff Mermelstein. A primeira seção do fotolivro é composta por mulheres mexendo no próprio cabelo (twirl) e a segunda por pessoas (em sua maioria, homens) correndo (run). A disposição gráfica do projeto apresenta três fotos em cada página, empilhadas verticalmente, sem margem entre elas. A experiência de folhear este livro é quase meditativa, porque depois de algumas páginas retratando a mesma coisa, você já sabe o que esperar das próximas. Virar a página deixa de ser pensar o que lhe espera, qual a próxima história que o autor vai contar, e se transmuta em quase um “Onde Está Wally?”. É saber que na próxima página, terão 3 fotografias de mulheres mexendo no cabelo, e já imediatamente voltar o olhar pra onde elas podem estar. A composição da maioria dos registros não é perfeita, nem todas as fotos têm uma linda iluminação. É um projeto que desiste de produzir imagens que sozinhas seriam atrativas, e apresenta o próprio processo como parte do resultado. A repetição, a insistência e a observação fazem do livro o que ele é.
Jeff Mermelstein
Jeff Mermelstein
Jeff Mermelstein
Jeff Mermelstein

Gian Chumer

A entrevista com Gian Chumer, que também é parte da voyeur mag; , marca o começo deste quadro que contará histórias muito interessantes. RUN; é sobre pessoas em movimento, transitando na cidade e na vida, contando um pouco sobre seu trabalho e sua visão de mundo no processo. Existirão muitas oportunidades de criadores, independente da área em que expõem sua prática,  de se abrirem e contarem sobre seus processos artísticos. Talvez, a parte mais importante de cenas artísticas e criativas da história foi o senso de comunidade, afinal ninguém cria sozinho e nenhum grupo (neste sentido, grupo não como uma prática conjunta, mas como contemporâneos que produzem na mesma época) está desligado do contexto em que existe. Então, a maior contribuição que podemos fazer é dar maior palco ao contexto, e acima de tudo, ao processo, parte talvez mais importante que o resultado. É de se esperar que hoje liguemos somente para o resultado, afinal é a parte que temos contato direto e imediato, seja em redes sociais ou outras plataformas de divulgação. É fácil esquecer que por trás de toda obra, há um longo e, por vezes doloroso, processo. E por trás desse processo, sempre pessoas que fazem a cultura girar e ser o que ela é. Essas pessoas estão em movimento pela cidade a todo instante, e nós estaremos sempre lá pra observar e registrar.
Abaixo, deixamos disponíveis as fotos tiradas durante a entrevista. Convidamos todos a observarem, comentarem e assistirem o primeiro episódio de RUN; disponível em nosso canal do Youtube.
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