A série conta com dois episódios e uma série de fotografias que acompanham os bastidores do processo de produção do Cold Skateboard Annual Book 2026.
O papel correndo pelas máquinas, o ritmo mecânico da impressão, as provas de cor sendo ajustadas e o cheiro característico do impresso recém-saído da gráfica, mais do que documentar etapas técnicas, a série revela a insistência em manter o impresso vivo em uma era dominada por telas.
''Temos que manter
o impresso vivo !''
Heverton Ribeiro.
Cada episódio se dedica a uma parte fundamental do processo: a impressão das folhas, a reprodução fiel das fotografias, o cuidado com a secagem e o acabamento, o encadernamento e, por fim, a montagem que transforma páginas soltas em objeto. O que poderia parecer apenas uma operação industrial revela-se um sistema preciso, quase coreográfico, no qual cada detalhe interfere diretamente no resultado final.
Ao direcionarmos o olhar para aqueles que tornam o projeto possível, a série amplia a compreensão do que é, de fato, produzir um livro. O Annual Book 2026 nasce do trabalho conjunto de fotógrafos como Jonathan Mehring, Bournout, Heverton Ribeiro, Graint Brittain e Flávio Samelo, que fotografaram skatistas como Tom Penny, Lance Mountain Rodrigo TX, Daewon Song e muitas outras lendas, e entregaram seus arquivos à equipe de design que sob a direção de arte de Luan Tanaka construíram o projeto. Em seguida todo esse trabalho foi encaminhado para a produção, nessa etapa, entram em cena operadores de máquina, técnicos de impressão e profissionais responsáveis pela encadernação e finalização do projeto. Funções distintas, contextos diferentes e realidades muitas vezes distantes entre si, mas que convergem para um mesmo objetivo.
O livro se constrói como um ecossistema, da captura da imagem nas ruas ao ajuste milimétrico das máquinas na fábrica, cada etapa depende da outra. Não há fotografia impressa sem o olhar do fotógrafo, assim como não há livro sem as mãos que calibram, dobram, alinham e montam o anuário. É uma cadeia interligada em que todos precisam de todos para que o resultado final exista como foi imaginado.
Ao registrarmos esse processo, os episódios deslocam o foco do produto final para a rede que o sustenta. O Annual Book 2026 deixa de ser apenas um conjunto de imagens e passa a ser entendido como a materialização de um trabalho coletivo, onde criação e execução se encontram para manter a mídia impressa viva, relevante e necessária.
Ao acompanhar esse percurso, a série também revela as tensões silenciosas entre tempo e matéria, em um cenário dominado pela instantaneidade das imagens digitais, o livro impresso exige pausa, precisão e espera. Cada etapa carrega uma duração própria, um ritmo que não pode ser acelerado sem comprometer o todo. Esse descompasso em relação ao fluxo contemporâneo não se apresenta como limitação, mas também como posicionamento, produzir um livro torna-se, também, um gesto de resistência.
Há ainda uma dimensão sensorial que atravessa todo o processo e que dificilmente pode ser traduzida em tela. O peso do papel, a textura da superfície, o cheiro da tinta fresca e o som das páginas sendo manuseadas constroem uma experiência que se dá no corpo, não apenas no olhar e ao evidenciar esses aspectos, a série sugere que o livro não é apenas um suporte de imagens, mas um objeto que se completa na relação física com quem o folheia.
Nesse sentido, o Annual Book 2026 também se insere em uma discussão mais ampla sobre permanência.
Enquanto arquivos digitais estão sujeitos à obsolescência de formatos e plataformas, o impresso carrega consigo uma vocação de duração, ele pode ser arquivado, revisitado, herdado. Não depende de interfaces ou atualizações para existir, sendo assim ao investir nesse formato, o projeto reafirma a importância de construir registros que atravessem o tempo de maneira autônoma. Por fim, ao tornar visível aquilo que normalmente permanece oculto, a série propõe uma mudança de perspectiva. O valor do livro deixa de estar concentrado apenas nas imagens que ele apresenta e passa a incluir todas as camadas de trabalho que o tornam possível. Reconhecer essas camadas é também reconhecer o livro como um território de encontro entre práticas, saberes e pessoas, onde diferentes formas de conhecimento se articulam para dar origem a um objeto comum.
Os episódios se diferenciam não apenas pelo que mostram, mas pela forma como conduzem o olhar e a escuta de quem acompanha a série.
. O primeiro se constrói a partir de uma lógica contemplativa, onde a imagem assume protagonismo, sem a presença de falas ou explicações diretas, convidamos vocês a observar com mais atenção os gestos, os ritmos e os detalhes do processo. A música, utilizada como único guia, estabelece uma atmosfera que reforça esse estado de imersão silenciosa e paixão pelo processo, permitindo que cada etapa seja percebida quase como uma sequência de imagens autônomas que, juntas, constroem sentido.
Já o segundo episódio mantém essa mesma base visual e sensorial, mas introduz uma nova camada narrativa ao incorporar a voz de Heverton Ribeiro, idealizador do Cold Skateboard Annual Book, que compartilha reflexões sobre o livro e seus processos, e oferece ao público um ponto de entrada mais explícito, articulando em palavras aquilo que, no primeiro episódio, era apenas sugerido pelas imagens.
Essa mudança desloca a experiência de uma observação mais aberta para uma leitura guiada, onde imagem e discurso passam a se complementar. Enquanto o primeiro episódio opera quase como um ensaio visual, o segundo se aproxima de um relato. Assim, a série constrói uma progressão, parte do silêncio e da contemplação para, em seguida, introduzir a fala como ferramenta de aprofundamento, ampliando as possibilidades de compreensão sem abandonar a sensibilidade que sustenta o projeto.
Além dos episódios em vídeo, a série se estende também para um conjunto de fotografias realizadas por um dos fotógrafos da voyeur; mag, Luan Tanaka, que registrou os bastidores desse processo e também do episódio.
fotos LUAN TANAKA
texto LUAN TANAKA